Você, dentista, provavelmente já ouviu falar do Simples Nacional. É o regime tributário famoso por simplificar o pagamento de impostos em uma única guia (o DAS). O que a maioria dos contadores generalistas não explica é que, para clínicas odontológicas, o Simples Nacional tem uma armadilha e uma chave de ouro.
A armadilha é ser tributado pelo Anexo V, com uma alíquota inicial de 15,5% sobre seu faturamento.
A chave de ouro é o Fator R, um mecanismo legal que permite à sua clínica “escapar” desse anexo caro e ser tributada pelo Anexo III, com uma alíquota inicial de apenas 6%.
A diferença between 15,5% e 6% é, literalmente, dezenas de milhares de reais que ficam no seu bolso (ou vão para o governo) ao final do ano.
O Fator R é, sem dúvida, a ferramenta de planejamento tributário mais poderosa para dentistas no Simples Nacional. No entanto, seu cálculo é mensal, complexo e exige uma gestão proativa. Se o seu contador atual não fala com você sobre “Fator R” ou “Pró-Labore estratégico” todo mês, você quase certamente está pagando mais impostos do que deveria.
Este guia da Portobello Contabilidade, especialista em saúde, vai explicar em detalhes o que é esse mecanismo e como ele funciona na prática para sua clínica odontológica.
O Problema: Por que a Odontologia cai no Anexo Caro (Anexo V)?
Quando você abre seu CNPJ de odontologia (CNAE 8630-5/04), a Receita Federal classifica sua atividade como “serviço intelectual de natureza científica”. Por padrão, essas atividades são tributadas no Simples Nacional pelo Anexo V.
O Anexo V foi criado para atividades com baixa necessidade de mão de obra e alta lucratividade. Sua alíquota inicial é de 15,5% sobre o faturamento.
Uma clínica faturando R$ 30.000,00 por mês pagaria, de cara, R$ 4.650,00 de imposto. Isso é quase o mesmo (ou até pior) do que o regime de Lucro Presumido, anulando a vantagem do Simples.
A Solução: O que é o Fator R e Como ele “Destrava” o Anexo III?
O Fator R é um cálculo criado pelo governo para incentivar empresas de serviço a contratarem mais. A regra é simples:
Se os gastos da sua empresa com Folha de Pagamento (nos últimos 12 meses) forem iguais ou maiores que 28% do seu Faturamento Bruto (dos últimos 12 meses), sua clínica é promovida para o Anexo III (alíquota inicial de 6%).
- Folha de Pagamento: Inclui salários de funcionários (secretária, ASB, TSB), encargos (FGTS, INSS Patronal) e, o mais importante, o seu Pró-Labore (o “salário do dono”).
- Faturamento Bruto: O valor total das Notas Fiscais emitidas.
Se a conta fechar (Folha ≥ 28% do Faturamento), você paga 6% de imposto.
Se a conta não fechar (Folha < 28% do Faturamento), você paga 15,5%.
Na Prática: Como Usar o Pró-Labore para Atingir o Fator R
A maioria dos donos de clínica odontológica não tem uma folha de pagamento de funcionários tão alta. A “peça” que usamos para fazer essa conta fechar é o seu Pró-Labore.
O Pró-Labore é a sua remuneração oficial como sócio-administrador. Diferente da “Distribuição de Lucros” (que é isenta de impostos), o Pró-Labore paga INSS (11%) e Imposto de Renda (conforme a tabela).
É aqui que a contabilidade estratégica entra.
Simulação: A Estratégia do Pró-Labore Calculado
Vamos imaginar uma Clínica Odontológica (SLU – Sociedade Limitada Unipessoal) em São Paulo, com faturamento médio de R$ 40.000,00 por mês e uma funcionária (ASB) com salário de R$ 2.000,00.
Cálculo da Meta (28%):
- Meta de Folha = R$ 40.000,00 x 28% = R$ 11.200,00
- A clínica precisa comprovar R$ 11.200,00 em gastos de folha para pagar 6% de imposto.
Folha Atual (sem planejamento):
- Salário ASB (com encargos): Aprox. R$ 2.800,00
- Pró-Labore (mínimo): R$ 1.412,00 (com encargos)
- Total da Folha: R$ 4.212,00 (Isso é 10,5% do faturamento, muito abaixo dos 28%).
Cenário 1: O Contador Generalista (Sem Fator R)
O contador não faz o planejamento.
- Folha (10,5%) < 28%
- Tributação: Anexo V (15,5%)
- Imposto a Pagar (DAS): R$ 6.200,00
Cenário 2: A Contabilidade Especialista (Com Fator R)
A Portobello identifica a meta de R$ 11.200,00.
- Folha Atual (ASB + encargos): R$ 2.800,00
- Valor Faltante: R$ 11.200,00 – R$ 2.800,00 = R$ 8.400,00
- Ação: Definimos um Pró-Labore estratégico de R$ 8.400,00 para o dentista.
- Nova Folha Total: R$ 2.800 (ASB) + R$ 8.400 (Pró-Labore) = R$ 11.200,00
- Meta Atingida! (Folha = 28% do Faturamento)
- Tributação: Anexo III (6%)
- Imposto a Pagar (DAS): R$ 2.400,00
Resultado:
- Imposto (Cenário 1): R$ 6.200,00
- Imposto (Cenário 2): R$ 2.400,00
- Economia Direta no Imposto: R$ 3.800,00 por mês.
“Mas e o Imposto sobre o Pró-Labore Alto?”
Essa é a pergunta certa. A economia de R$ 3.800,00 não é líquida, pois o Pró-Labore estratégico (R$ 8.400) tem seus próprios impostos (11% de INSS e IRPF).
Vamos analisar o custo total do Cenário 2:
- Imposto (DAS): R$ 2.400,00
- INSS sobre Pró-Labore (11% de R$ 8.400): R$ 924,00
- IRRF sobre Pró-Labore (aprox.): R$ 138,40
- Custo Total (Cenário 2): R$ 3.462,40
Comparação Final (Custo Total):
- Custo Cenário 1 (Anexo V): R$ 6.200,00
- Custo Cenário 2 (Anexo III): R$ 3.462,40
Economia Líquida Mensal: R$ 2.737,60
Economia Líquida Anual: R$ 32.851,20
Ao pagar R$ 924,00 de INSS sobre seu pró-labore, você não está “gastando”, está investindo na sua aposentadoria, enquanto economiza mais de R$ 32 mil em impostos federais.
Fator R: Uma Gestão Mensal, Não Anual
O cálculo do Fator R não é feito apenas uma vez. Ele usa a média dos últimos 12 meses. Isso significa que, se o seu faturamento oscila (o que é normal em clínicas), o valor do seu pró-labore precisa ser ajustado mensalmente por uma contabilidade proativa.
- Faturou mais? Talvez precise aumentar o pró-labore.
- Faturou menos? Talvez possa reduzir o pró-labore.
Um contador que só aparece no final do ano ou que define um pró-labore fixo e nunca mais olha, está colocando sua empresa em risco de desenquadramento ou fazendo você pagar impostos a mais sobre o pró-labore.
Conclusão: O Fator R é a Prova da Especialização
O Fator R é o exemplo perfeito de por que sua clínica odontológica não pode ser tratada por um contador generalista. A economia que ele gera é, sozinha, suficiente para pagar a assessoria contábil especializada e ainda gerar dezenas de milhares de reais em lucro líquido.
É uma estratégia 100% legal, baseada em planejamento e gestão ativa.
Na Portobello Contabilidade, o cálculo do Fator R é parte da nossa rotina de assessoria para dentistas. Nós não apenas cuidamos dos seus impostos passados; nós planejamos ativamente seus impostos futuros, garantindo que você pague o mínimo possível, dentro da lei, todos os meses.
FAQ: Perguntas Frequentes sobre Fator R para Dentistas
O Fator R se aplica ao Lucro Presumido?
R: Não. O Fator R é um mecanismo exclusivo do Simples Nacional. No Lucro Presumido, a tributação é outra (média de 13,33% a 16,33% sobre o faturamento), e o custo da folha de pagamento não interfere na alíquota de imposto sobre o faturamento.
E se eu não tiver funcionários?
O Fator R ainda funciona?
R: Sim. Se você é um dentista que trabalha sozinho (SLU), seu Pró-Labore será o único componente da “Folha de Pagamento”. Se você fatura R$ 20.000,00, seu pró-labore estratégico teria que ser de R$ 5.600,00 (28%) para garantir a alíquota de 6%.
O que é melhor: Pró-Labore alto (para Fator R) ou Distribuição de Lucros (isenta)?
R: Depende da sua estratégia. A Distribuição de Lucros é isenta de impostos, o que é ótimo. No entanto, você só pode distribuir lucros depois de pagar todos os impostos. O Pró-Labore é o “custo” necessário para destravar a alíquota de imposto baixa (6%). Um especialista equilibra os dois: definimos o pró-labore mínimo necessário para o Fator R, e todo o restante do seu ganho é pago como Distribuição de Lucros isenta.
O que entra no cálculo da “Folha de Pagamento” para o Fator R?
R: Entram: Salários de funcionários (CLT), Férias, 13º Salário, FGTS (o valor depositado no mês) e o Pró-Labore dos sócios. Não entram: pagamentos a outros PJs (dentistas parceiros), estagiários ou a Distribuição de Lucros.



